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Sobre os que ficam

É sempre muito triste receber a notícia de que alguém se foi. E nessa era internética, se conhecemos muita gente – e temos muitos contatos online –, ficamos sabendo não apenas dos familiares, amigos e conhecidos, mas dos amigos de amigos, e amigos de amigos de amigos… E assim vai. O mundo começa a parecer um grande balaio de mortos, um e outro e outro e em algum momento seremos nós. Como disse uma amiga certa vez, “viver é um intervalo entre nascer e morrer”. No entanto, não é fácil olhar diretamente para a efemeridade da vida e aceitar. Como uma luz intensa, a certeza da morte faz com que a gente cerre os olhos e vire a cabeça para o lado. É uma certeza incerta: não sabemos quando virá e o que acontece depois. Só sabemos que uma hora ela chega e torna o corpo um prédio vazio e desabitado. Além do sofrimento pelas perdas em si e privação de convívio, mortes próximas doem de um jeito mais agudo e insuportável porque nos coloca frente a frente com a nossa insignificância. Passamos o tempo inteiro tentando dotar a realidade de sentido e simular algum controle sobre ela. Mas, de repente, aquele amigo que estava sempre ali, reclamando ou rindo de alguma coisa, não existe mais. A avó querida e os almoços de domingo não existem mais. Aqueles colegas que estavam sempre ali, pelos bares e festinhas, não existem mais. A não existência dá nó no cérebro. Como teoria é compreensível, mas não deixa de ser uma evidência inverificável. Então a gente vive quase como que rolando um penhasco e tentando deixar marcas que finquem a nossa existência no mundo. Quem nunca pichou “estive aqui” que atire a primeira pedra. Quem nunca escreveu, desenhou, dançou, cantou, riscou, cortou, correu. A eternidade é assustadora, mas queremos existir, de alguma forma, para além dos nossos corpos. Transcender.

Aos que se vão, palavras bonitas são ditas, homenagens são feitas. Lembranças e fotos voltam à tona. O “vamos marcar” não concretizado é lamentado, as qualidades são enaltecidas. Rituais são necessários para aceitar a partida e expiar a culpa. Porém, sugiro, com todo o meu coração, que as pessoas consigam ultrapassar as barreiras do constrangimento, da preocupação com a própria imagem, da insegurança, da competição e se dispam um pouco das máscaras do dia a dia. Vivemos em uma sociedade acostumada a elogiar xingando, a misturar ofensa e opinião, a valorizar o blasé e ridicularizar sentimentos espontâneos. Que essa dinâmica comece a ruir até que seja suspensa para sempre – não apenas em dias especiais e tristes – e as pessoas consigam aproveitar cada vez mais o agora. Sem riso contido, mágoa entalada, abraços não dados e declarações de amor e afeto suprimidas. Que o brega ou o rídiculo não sejam parâmetros de medição, que as convenções sociais castradoras virem regras a ser quebradas. Que os vivos vivam realmente. Porque os mortos inevitavelmente serão chorados.

E tenho certeza de que eles adorariam saber, ainda em vida, que eram tão amados.

“Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem. Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem”

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escrever sobre escrever

isso acontece sempre. abro uma página em branco do word e tento escrever sobre algo. algo que martela na minha mente há tempos, algo que me chama a atenção, algo que eu amo, algo que me incomoda. sei lá.  mas não consigo. não consigo porque assim que meus dedos começam a bater nessas teclas, assim que palavras começam a se formar na tela, assim que vejo minha consciência materializada em letras conectadas, meu fluxo de pensamento é quebrado. e dá lugar a uma ladainha metalinguística chatíssima, que me faz falar sobre a dificuldade de escrever. dificuldade de escrever da forma que eu gostaria, pelo menos. porque, felizmente, como exclamou uma tia distante ao ler um texto ~jornalístico~ meu, “essa menina foi alfabetizada direitinho!!!1!1”.

então penso que abraçar essa ladainha e rolar na lama com ela faça com que eu finalmente consiga tirá-la do meu caminho. como dois amantes em conflito que precisam de uma última emoção juntos antes de dar tchau. e faça com que da próxima vez que eu abrir uma página em branco do word, eu consiga escrever sobre o que estou com vontade de escrever.

mas não duvido nada que vou acabar inventando uma outra desculpa pra projetar o meu bloqueio.

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TOP 5 DIFICULDADYS

(totalmente de brinde: a voz do meu inconsciente em itálico)

1. “oh, meu deus, eu sou tão engraçada na vida real e tudo que escrevo me parece tão deprimente”

talvez você não seja tão engraçada assim?

2. “escrever é isso e aquilo e sinto que estou reduzindo toda a minha ~complexidade~ se eu não alcançar êxito em transmitir tal ideia/acontecimento”

escreve direito.

3. “como mesclar meu lado intelectual com o lado cultura pop – sem deixar de mencionar também a existência de tardes ociosas recheadas de cheesecake & siririca?”

como falar ~intelectual~, ~cultura pop~ e sintetizar os momentos de ócio sem parecer uma retardada?

4. “e se o receio de ser lida por familiares ou empregadores atrapalharem o meu processo de escrita?”

chegar atrasada no trabalho ou ser flagrada fazendo sexo por familiares é muito pior do que qualquer bloguinho idiota — ops.

5. “e se eu acabar gostando tanto daqui e um dia acabar até me autointitulando BLOGUEIRA?”

o seu eu de agora viajará no tempo para dar um pescotapa no seu eu futuro, não se preocupe.

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talvez um dos males dessa era internética seja esse: nos achamos todos especiais demais. e essa é também uma grande benção, porque somos todos especiais demais, não é mesmo?

três

nós desatados. nós frouxos, que nunca irão se soltar. nós dos dedos. nós: eu, você, eles, elas. um bolo confuso, laços unidos, fiapos soltos. etc. eu adoro essa palavra. nós, nós, nós. não que eu goste necessariamente de todos os múltiplos significados que se desdobram dela. talvez eu goste mesmo é da possibilidade de espremer tanta coisa de algo tão simples. três letras e uma gama de associações.

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ao mesmo tempo, eu odeioodeioodeio associações. e joguinhos de palavras. e pessoas que acham esse tipo de coisa genial. odeio quem acha algo ~genial~ e odeio a ~genialidade~. eu odeio clássicos e odeio sacralizações. odeio um monte de coisas. odiar é fácil.

e você me ensinou.

eu tinha medo das palavras. ódio, azar, desgraça. alguém sempre dizia que verbalizá-las poderia atrair seus significados. porra nenhuma, “a boca é minha, falo o que quiser”. só que, no fundo, eu continuava com medo. ter medo também é fácil. direciona mais objetivamente o sentido da culpa. seja a sentida ou a atribuída.

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tudo aconteceu num estalo, numa convicção, como se todas as outras vezes tivessem sido um ensaio para esse momento definitivo. palavras, ódio, medo. nós deixando de existir.

foi uma surpresa.

eu já esperava.

desde então, desempilho frágeis certezas construídas ao longo do tempo, como quem quer doar uma roupa antiga mas não tem certeza se, algum dia, ela vai voltar à moda.

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“odeio todo mundo, menos você”

e eu já não entendo mais nada.