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um beijo e até mais

eu costumava falar pra um garoto que eu o amava tanto que não existiam palavras suficientes para traduzir o que se passava dentro de mim. acho que todo mundo que se apaixonou por alguém um dia já esteve nessa situação de querer verbalizar a complexidade de sentimentos que ricocheteiam dentro da gente feito bolas de pinball vagando a esmo, além dos limites do jogo. passei por algumas situações humilhantes, despedidas e términos nessa vida, e achava que sabia o que era medo, intensidade, tristeza, dúvida.

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foram meses de visitas a hospitais e centros oncológicos, angústia, desespero, bolsas de colostomia, delírios, fraldas geriátricas… um conjunto das possíveis variações de tudo aquilo que pessoas que já enfrentaram o câncer ou acompanharam o caso de alguém sabem como é. meses de sofrimento compartilhado, em que os netos tentavam seguir a vida, apesar de tudo, enquanto os filhos se revezavam pra dormir no hospital. meses em que nos reuníamos para os rotineiros almoços em família e tentávamos manter esperanças de que tudo ia ficar bem, mesmo que a vovó estivesse deitada no quarto, já deixando de ser a pessoa que conhecíamos.

morrer faz parte da vida e é a única situação que todos nós podemos ter certeza que vamos enfrentar um dia. isso já foi e será dito de diversas maneiras, e eu gostaria mesmo de ter um entendimento elevado, maduro e resignado sobre essa questão. porém, minha criação ocidental > classe média > filha única talvez deixe meu pensamento turvo e perturbado: não consigo não ter medo ou não ser egoísta.

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eu achava que sabia o que era não ter palavras até despencar, de vez, dentro de mim mesma, em um abismo sem parapeito. a morte abre um buraco dentro de cada pessoa ao redor e a expressão “o tempo passa num piscar de olhos” passa a fazer tanto, mas tanto sentido… “vó, vem me limpar”, o cadarço do all star cor-de-rosa sendo amarrado sozinha pela primeira vez, biscoitos de queijo, as brincadeiras no quintal, a gemada obrigatória a quem estivesse doente, a implicância com meus cabelos cacheados… essas situações, há tempos, não passam de lembranças… mas agora, ela também é apenas uma lembrança. o eu físico estava ali, inerte. onde estavam as broncas, as conversas? pra onde foi toda a energia que movia aquele corpo? de repente, parece que pisquei o olho, tomei um soco e uma parte inteira da minha vida se foi.

e realmente é isso: uma parte da minha vida se foi — e se vai, a todo momento. da minha e de todo mundo ao meu redor. como passa rápido mesmo! dói pensar em ter que me despedir de outras pessoas que amo algum dia. a pergunta de um milhão de dólares não para de richochetear na minha cabeça, junto com as bolas de pinball: qual é a disso tudo, meudeus? o que vem depois e tal deve ser que nem antes, o não existir pré-nascimento? encontrei dentes meus que caíram na infância, no meio das coisas da minha mãe, e pensei em unhas que a gente corta, cuspe, cabelos, pele morta, apêndice… essas partes que se desprendem da gente mas não são mais a gente, que são mais como um pedaço de qualquer coisa sem consciência. será que é assim?

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fui à igreja porque ela gostaria que a gente fosse. mas não consigo ter fé, no sentido tradicional que falam da fé, sabendo como a maior parte das religiões operam. tudo que ouvi foi terrorismo e ameaça travestidos em palavras bonitas. eu realmente tive esperanças de encontrar conforto, mas me senti ainda mais desamparada. no entanto, talvez exista algo — mas algo  intraduzível e ininteligível para a forma de raciocinar do ser humano e que chamo aqui de “algo” por ser assim, misterioso e disforme, pelo menos em relação aos nossos moldes. só espero um dia não ter mais medo, nem do finito e nem do eterno.

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a família agora se abraça forte, porque todos foram acometidos pela falta de palavras também. não dormimos direito e nos distraímos mexendo nas coisas dela. dinheiro escondido, lacres de latinha, roupas antigas, anotações sobre datas consideradas importantes, poster do tancredo neves, disco do agepê: o tempo desfila na nossa frente — bem como a lição de que coisas são só coisas. “ela era tão apegada às coisas dela, será que ia ficar brava de ver a gente mexendo?”. nunca sentimos tanta saudade de uma bronca.

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vó, vem me limpar ————————————————————- as lágrimas.