eu sei que você sabe que eu sei que você sabe

estou sempre tentando criar novas estruturas nos relacionamentos que vivo. estruturas que se baseiem em sinceridade e respeito às vontades mútuas, que criem laços profundos e verdadeiros, ainda que momentâneos. a efemeridade que circunda as pessoas —– e a própria vida, na real —– não precisa funcionar como um freio truncador de emoções. o que ~não é para sempre~ não precisa ser superficial —– caso contrário, qual seria o sentido de começar qualquer coisa que seja? não gosto da polidez do “oitudobemtudo”, quero pelo menos fragmentos dos sentimentos entalados: “o acontecimento x fez eu me sentir um lixo” ou “quase gritei de tanta felicidade por conta de y”. gosto de viajar por pessoas como quem viaja por países, entrando um pouco em cada uma e montando esse quebra-cabeça sem fim que é o ser humano.

“uso os outros pra me conhecer”, já disse um amigo.

não sou tão devota da honestidade quanto gostaria, acho que prezo mesmo é pela crueza. prefiro quem não mente para si próprio do que quem não mente nunca para os outros. a vida fica menos pesada (e pensadamente escrevi “menos pesada” no lugar de “leve”, porque acho que nunca será leve) quando detectamos as variáveis das nossas próprias nuances. ao mesmo tempo, ás vezes me cansa ser o tipo de pessoa para quem se pode contar tudo. o tipo de pessoa que experimenta e incentiva as outras a experimentarem. o tipo de pessoa que não se choca tanto, que problematiza, analisa e não apenas julga. porque tem horas que eu queria um pouco de paz. tem horas que eu queria um refúgio seguro dentro dos moldes de ideias e comportamentos já existentes e legitimados. tem horas que eu queria ter alguma fé que me permitisse viver uma vida insossa e tranquila —– montanha russa todo dia cansa. mas aí vejo as pessoas aparentemente enquadradas emaranhadas em certezas e obrigações que são mantidas e perpetuadas na base do constrangimento, da coação social. e o que me parecia, por alguns segundos, um travesseiro macio, vira uma cama dura novamente.

—–

caminhei consciente rumo ao abismo. eu sabia, desde o começo, como tudo ia ser. eu sabia, eu sempre sei, mas existe uma pulguinha egocêntrica dentro de mim que coça muito e diz que sou capaz de mudar a rota dos trilhos do trem. mas ele acaba mesmo é descarrilhando.

não gosto de respostas lançadas gratuitamente, respostas que não são resultados de perguntas. mas, ao mesmo tempo, dentro de uma estrutura pretensamente sincera, faz parte do processo descortinar também o que não foi dito, certo? as entrelinhas sim, meu deus, guardam mais mistérios do que a nossa vã filosofia possa imaginar. e ao mesmo tempo piscam verdades, feito neon de boate barata, que todo mundo finge não perceber.

eu queria caminhar livremente, sem ter o espaço dos meus passos delimitado por círculos de giz, feito um peru preso dentro de uma percepção abstrata. eu queria poder querer o que eu quisesse, sem que a pressão de não querer me obrigasse a suprimir minha espontaneidade. eu não te perguntei nada, mas ainda assim, você quis me colocar no meu ~devido lugar~.

 “eu não vou ter uma vida de namorado com você ainda. talvez nunca tenha”.

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